Muitas multinacionais de biotecnologia tentam convencer a opinião
pública a respeito dos benefícios dos transgênicos,
argumentando que a engenharia genética vai reduzir o uso de agrotóxicos.
Mas, contraditoriamente, as mesmas empresas estão aumentando a sua
capacidade de produção destes produtos,
chegando,
inclusive a pedir permissão para aumentar os resíduos destes
químicos na engenharia genética.
Até agora, a maioria das empresas que desenvolvem os transgênicos
tem direcionado suas pesquisas para a produção de organismos
resistentes a seus próprios herbicidas. Isto quer dizer que se uma
plantação receber agrotóxicos, todas as plantas morrerão,
exceto as que forem resistentes aos mesmos. Dos 27.8
milhões
de hectares plantados em 1998 no mundo, 71% eram resistentes a herbicidas.
Nos Estados Unidos as sementes transgênicas são vendidas sob
um contrato especificando que agricultores que guardarem sementes para
plantar na próxima estação, ou usarem outro herbicida
que não o produzido pela empresa, poderão ser processados.
"A biotecnologia está sendo desenvolvida usando o mesmo discurso
que promoveu os defensivos agrícolas. O intuito é atingir
dois objetivos a curto prazo: aumentar a produção e as margens
de lucro. Este discurso segue o ponto de vista de que a natureza deve ser
dominada, explorada e forçada a produzir mais, infinitamente...
Este pensamento reducionista analisa sistemas complexos como o da agricultura
em termos das partes que o compõem e não como um sistema
integrado à natureza. Nessa concepção, o sucesso da
agricultura significa ganhos de produtividade a curto prazo, em vez de
sustentabilidade a longo prazo" – Jane Rissler (Union of Concerned Scientists).
Enquanto a engenharia genética se auto promove como a única
opção realista para alimentar o mundo no próximo milênio,
a opinião pública vem se mostrando desfavorável aos
excessos das práticas da agricultura industrializada. Sendo assim,
a agricultura orgânica ganha cada vez mais adeptos.
Poluição Genética
Os genes introduzidos em plantas e animais através da engenharia
genética podem ser transferidos para outras espécies. Estudos
mostraram que os genes de canola transgênica poderiam se espalhar
rapidamente entre seus parentes (fracos e fortes). Estes genes, que foram
geneticamente modificados para terem
resistência
ao glifosato - um herbicida bastante utilizado - cruzaram com espécies
mais fracas após duas gerações. Pesquisas na Alemanha
mostraram que o gene de resistência ao glifosato pode ser transferido
para plantações comuns que estão até 200 metros
distantes de cultivos transgênicos.
Organismos antes cultivados para serem usados na alimentação
estão sendo modificados para produzirem produtos farmacêuticos
e químicos. Essas plantas modificadas poderiam fazer uma polinização
cruzada com espécies semelhantes e, deste modo, contaminar plantas
utilizadas exclusivamente na alimentação.
Muitas espécies de peixes transgênicos estão sendo
testadas por criadores de peixes. O gene de hormônio de crescimento
foi introduzido para promover níveis elevados de desenvolvimento.
Alguns salmões cresceram até 5 vezes mais que seu semelhante
normal em apenas um ano. Em algumas partes da Noruega, peixes transgênicos
escaparam do criadouro e hoje são encontrados na proporção
de 1 para cada 5 peixes nativos.
A engenharia genética criou mosquitos e outras espécies de
insetos para vários propósitos. A comercialização
destes organismos introduziria novas espécies no meio ambiente,
o que pode ser desastroso já que estas criaturas se reproduzem rapidamente
e viajam longas distâncias, podendo, assim, causar desequilíbrios
nos ecossistemas.
Uma empresa chamada Biotechina International desenvolveu plantações
experimentais de soja em 1989 que incluíam uma camada de sementes
contendo microorganismos transgênicos, numa tentativa de aumentar
a fixação de nitrogênio no solo. No fim da estação,
as plantas e sementes foram incineradas e os
campos
foram arados para um novo cultivo ser plantado. O monitoramento subsequente
mostrou que os microorganismos transgênicos se espalharam por mais
de quatro acres e estavam competindo com microorganismos já existentes
no solo.
Experimentos de laboratório em 1998 demostraram que a transferência
genética poderia ocorrer entre o açúcar de beterraba
transgênico e uma bactéria do solo chamada Acenitobacter.
Em teoria, qualquer inseto, pássaro ou outro animal poderia pegar
esta bactéria do solo e levar para outro local.
Uma vez solto, este novo organismo produzido pela engenharia genética
seria capaz de interagir com outras formas de vida, reproduzir-se, transferir
suas características para outras espécies e sofrer mutações,
entre outras conseqüências o meio ambiente. Uma vez introduzidos
no meio ambiente, dificilmente estes organismos transgênicos poderão
ser recolhidos novamente. Portanto, qualquer erro ou consequência
indesejável pode então ser repassados para gerações
futuras.
Cultivos Resistentes a insetos
Bacillus Thuringiensis (Bt) é uma bactéria do solo que produz
uma toxina que tem um grande valor para produtores orgânicos, porque
é utilizada como um bio-pesticida bastante efetivo. Através
da engenharia genética o gene da bactéria Bt foi introduzido
dentro de algumas plantas tornando-as resistentes a este biopesticida.
Como os insetos absorvem esta toxina através da ingestão,
a probabilidade destes tornarem-se resistentes a ela é muito grande.
A agência de proteção ambiental americana (EPA) estima
que dentro de 3 a 5 anos, muitos insetos já terão desenvolvido
resistências ao Bt. Consequentemente, o uso permanente desta bactéria
poderá destruir o seu uso na agricultura orgânica. Além
disso, mesmo insetos inofensivos para o cultivo podem ser afetados por
esta toxina através do processo de ingestão, o exemplo mais
conhecido é o das borboletas monarca.
Um estudo recente elaborado na Suíça descobriu que as Lacewings
(insetos benéficos que atacam as pestes das lavouras), quando alimentadas
com milho Bt, morrem com mais facilidade. O uso de toxinas contra insetos
em cultivos transgênicos, também é um fator preocupante,
porque pode afetar a base da cadeia
alimentar.
Num outro experimento de laboratório, joaninhas foram alimentadas
com pulgões que foram, por sua vez, alimentados com batatas transgênicas.
Comparadas à Joaninhas alimentadas normalmente, elas apresentaram
uma produção de ovos menor, assim como viveram a metade do
tempo de vida das outras.
Impactos sobre a biodiversidade
Com o corrente desmatamento e a poluição, a cada ano mais
de 30 mil espécies de plantas e animais correm o risco de extinção.
A FAO (Agencia das Nações Unidas para Alimentação
e agricultura) estima que 75% da diversidade genética que o mundo
tinha na agricultura no inicio do século já esteja perdida.
O uso da engenharia genética na agricultura está se espalhando
rapidamente com a globalização, sendo amplamente aplicado
em monoculturas (são as monoculturas as grandes disseminadoras da
engenharia genética) que, juntamente com outros fatores, são
responsáveis pela diminuição da diversidade de espécies.
Segundo Miguel Altieri, "embora a biotecnologia tenha a grande capacidade
de criar mais variedades de cultivos comerciais, a tendência estabelecida
por apenas quatro multinacionais é criar um mercado internacional
para um único produto, criando condições para a uniformização
genética de paisagens rurais".
A uniformidade genética leva a uma maior vulnerabilidade do cultivo
porque a invasão de pestes, doenças e ervas daninha sempre
é maior em áreas que plantam o mesmo tipo de cultivo. O caso
da "fome das batatas", que aconteceu na Irlanda no século passado,
é um bom exemplo das conseqüências que a uniformidade
genética das plantações pode causar.
A biodiversidade é entendida como a base da segurança alimentar.
Quanto maior for a variedade (genética) no sistema da agricultura,
mais este sistema estará adaptado para enfrentar pestes, doenças
e mudanças climáticas que tendem a afetar apenas algumas
variedades.
Os índios do México usavam uma forma de manejamento florestal
sofisticado que se constituía, simplesmente, no cultivo de um número
bastante vasto de espécies de plantas em pequenos jardins, campos
agrícolas e hortas florestais.
É possível traçar vários paralelos entre a
"revolução genética" e a "revolução
verde". Esta última, representou uma iniciativa em massa de governos
e empresas para convencer os fazendeiros do Terceiro Mundo a trocar as
variedades de cultivos tradicionais por algumas variedades de cultivos
que dependem do uso de químicos e fertilizantes. Isto levou a uma
grande perda da diversidade genética. Muitas variedades indígenas
cultivadas por agricultores já se perderam para sempre.
Outro fator que destrói a diversidade genética é a
introdução de espécies não nativas em outros
ecossistemas. Nos Estados Unidos, até 42% das espécies já
estão ameaçadas em função de espécies
"estrangeiras".
A engenharia genética e a fome mundial
Muitas vezes o uso da engenharia genética na agricultura é
justificada pelo aumento da população mundial. Porém,
de acordo com as Nações Unidas, o mundo produz uma vez e
meia a quantidade de alimentos necessária para alimentar toda a
população do planeta. Apesar disso, uma em cada sete pessoas
passa
fome
no mundo. Segundo o prêmio Nobel da Paz indiano, Armatya Sen, o problema
da fome do mundo é conseqüência da péssima distribuição
de renda e da pobreza.
O problema da fome está, portanto, intimamente ligado com as desigualdades
sociais. Assim sendo, a engenharia genética, pelo menos até
o momento, não se mostrou capaz de ser uma alternativa para solucionar
o problema. Pelo contrário, a falsa idéia de que a biotecnologia
é a solução, permite que governos e indústrias
se distanciem do seu compromisso político de lidar com as desigualdades
sociais que levam à fome.
A ajuda financeira fornecida pelos países de 1º mundo aos países
pobres são pagas com juros que resultam num montante 3 vezes maior
do que o recebido. Segundo o Relatório sobre Desenvolvimento preparado
pela ONU em 1997, "só na África, o dinheiro usado anualmente
para o pagamento de dívidas poderia ser
usado
para salvar a vida de 21 milhões de crianças até o
ano 2000".
Durante a grande fome de 1984 na Etiópia, as melhores terras cultiváveis
estavam sendo usadas para o cultivo de canola, algodão e semente
de lins que eram exportadas para a Europa com o objetivo de servir como
alimento para gado.
"Ao invés de reduzir a fome no mundo, a engenharia genética
tem uma chance maior de aumentá-la. Os produtores poderão
entrar em um círculo vicioso se ficarem dependentes de um pequeno
número de multinacionais - como a Monsanto - para a sua sobrevivência.
Durante os últimos 25 anos, a Action Aid tem dado
suporte
a produtores pobres para que estes mantenham uma agricultura sustentável.
Mesmo com a população mundial crescendo, nós sabemos
que a produção global de alimentos é suficiente, e
que é a desigualdade a responsável por milhões de
pessoas famintas. A verdade é que os cultivos transgênicos
certamente aumentarão a margem de lucros da Monsanto, mas poderão
representar um grande passo atrás para a pobreza do mundo", diz
Salil Shetty, Diretora Executiva da
Action
Aid.
Na Coréia do Sul, após a implementação da revolução
verde, o número de pequenos proprietários com dívidas
aumentou de 76%, em 1971, para 98%, em 1985. Na região do Punjab,
na Índia, estes altos custos levaram a uma diminuição
de pequenas propriedades em aproximadamente um quarto entre 1970 e 1980,
levantando alguns agricultores até mesmo até mesmo ao suicídio
por causa da dívida. Enquanto a agricultura sustentável enfatiza
o uso de recursos locais para ajudar as comunidades a se manterem, o lucro
das multinacionais só aumenta em virtude de sementes, químicos
e fertilizantes fabricados pelas mesmas. Talvez seja por esse motivo que
estas empresas se recusam a reconhecer o potencial de
qualquer
sistema de agricultura que fuja ao seu controle.
A Monsanto desenvolveu a tecnologia chamada exterminadora" (Terminator).
Visando proteger sua patente, a empresa produziu sementes que, quando plantadas
novamente, são incapazes de germinar. A técnica de guardar
as melhores sementes para a próxima estação é
uma prática milenar utilizada por mais de
um
bilhão de agricultores em todo o mundo. Com a tecnologia Terminator,
a multinacional vai simplesmente acabar com esta prática e tornar
os agricultores seus escravos.
"Esta é uma técnica imoral que rouba os direitos das comunidades
agricultoras. Governos e produtores de todo o mundo deveriam declarar essa
tecnologia contrária à ordem pública e à segurança
nacional. Esta é a bomba de nêutrons da agricultura", diz
Camila Montecinos, Centro de Educación y Tecnología, Chile
