Muitos
dos produtos de uso clínico humano ou veterinário são
proteínas ou polipeptídios. Podemos citar como exemplos
a albumina, o hormônio de crescimento, a insulina, a eritropoietina,
os interferons, entre outros. Estes produtos biotecnológicos
podem ser obtidos extrativamente, como é o caso da albumina,
obtida a partir do plasma humano, ou a partir de sua produção
por organismos geneticamente modificados, que são rotulados genericamente
de proteínas recombinantes, como é também a albumina
humana produzida na levedura Pichia pastoris, ou o hormônio
de crescimento, a partir de bactérias Escherichia coli.
Tanto no caso extrativo como no caso dos produtos recombinantes, existe
a necessidade de purificação da proteína de interesse.
Muitas vezes, esta é uma etapa crucial para o processo biotecnológico
em si.
Nesse caso, o
desenho de um processo otimizado de purificação de uma
proteína dependerá de suas características físico-químicas,
de suas propriedades biológicas, da fonte da qual a proteína
será purificada e da tecnologia de purificação
disponível. O produto final deverá ser resultado dos compromissos
definidos no desenho do processo, ou seja: custo, velocidade, volume
e pureza.
Tipicamente, um
processo de purificação de uma proteína é
composto por múltiplas etapas. O uso de cromatografias de adsorção
tem sido o sistema corrente de purificação de proteínas.
Porém, existe uma etapa inicial prévia, que consiste na
clarificação da amostra para as etapas cromatográficas
posteriores. Essa etapa representa um grande problema a ser solucionado.
Na maioria das vezes, utilizam-se técnicas de precipitação
por centrifugação ou de filtração. Ainda
assim, tais técnicas podem não resolver o problema de
clarificação da sua amostra, trazendo uma série
de transtornos como a obtenção de uma solução
ainda particulada, entupimento das membranas de filtração,
manipulação de um grande volume num tempo excessivamente
longo, custo elevado, entre outros. Esses transtornos são gerados
em função da fonte que é usada na purificação
da proteína de interesse.
Em geral, as proteínas
de interesse estão presentes em fluídos naturais como
plasma sanguíneo, fluído de cultura de células
de mamífero, de cultura de microorganismos, extratos de tecidos
ou células rompidas de microorganismos. Recentemente, avanços
têm sido alcançados no sentido de simplificar o processo
de "downstream". Um deles é diminuir o número de etapas
iniciais de clarificação das amostras para posterior adsorção
em resinas cromatográficas.
Foram desenvolvidas
resinas cromatográficas que, ao contrário das convencionais,
permitem a adsorção de amostras contendo materiais particulados
e/ou células . Este novo conceito é conhecido como sistema
de leito expandido.
Princípio da técnica de leito expandido:
A fase estacionária (resina/ adsorvente) do leito expandido é
equilibrada, na forma expandida, com o tampão de equilíbrio.
A amostra contendo as células é aplicada, no sentido de
baixo para cima, no leito estabilizado. Desta forma, a proteína
de interesse e alguns contaminantes adsorvem na resina, enquanto as
células saem pela parte superior da coluna. A tela existente
na parte su
perior da coluna é aberta
o suficiente para permitir a saída dos debris celulares e outras
partículas que estiverem presentes. O tempo para que a proteína
alvo seja adsorvida depende do fluxo de aplicação da amostra,
bem como da quantidade de resina que foi utilizada para se fazer a expansão
(tempo de retenção).
Após a aplicação
da amostra, a resina é lavada de baixo para cima, com o tampão
de lavagem, para remoção dos debris celulares e das proteínas
que não se adsorveram na resina.
A etapa de eluição
da proteína de interesse é feita de cima para baixo, ou
seja, após sedimentação do leito. Em seguida, a
coluna é limpa e regenerada para um novo uso. A idéia
desta tecnologia é combinar as etapas de clarificação
e adsorção em uma só, a fim de aumentar o rendimento,
diminuir o tempo de processo, os custos, etc.
O processo de
"downstream" clássico apresenta a etapa de captura da amostra
(purificação inicial ), as de purificações
intermediárias e final, que podem ou não ser necessárias,
dependendo da pureza final requerida pela amostra. A necessidade de
maior ou menor pureza é determinada pelo uso do produto, ou seja,
uso humano, diagnóstico ou veterinário.
O planejamento
da estratégia de purificação deverá considerar:
- As necessidades regulamentadoras: especificações determinadas
pela farmacopéia de referência, Ministério da Saúde
e órgãos reguladores.
- Aplicação final do produto: humano, veterinário,
diagnóstico.
- Fase de desenvolvimento do projeto.
- Escala de manufatura para atender à demanda do produto.
- Viabilidade econômica.
- Existência de facilidades de produção ou não,
devendo ser considerada, inclusive, a terceirização da
produção, etc.
O grande desafio
dos processos de purificação de proteínas é
o exaustivo trabalho de desenvolvimento para adequar a melhor técnica
ao processo, a transferência da metodologia para a escala de produção,
garantindo que o produto final tenha todas as características
estabelecidas anteriormente para seu uso em humanos, para diagnóstico
ou uso veterinário. E tudo isto se passa, muitas vezes, no decorrer
de anos. É como se fosse uma grande escultura que pouco a pouco
se esculpe para se chegar à concepção final.
Aplicação biotecnológica
O Centro de Biotecnologia do Instituto Butantan vem buscando desenvolver
vacinas e biofármacos para uso humano, alguns obtidos a partir
de extratos ou fluidos humanos, outros a partir da expressão
da proteína de interesse em organismos engenheirados. Nesse caso,
é importante ressaltar que o uso de sistemas cromatográficos
de leito expandido pode representar uma forma de obter a proteína
de interesse por um custo menor, com uma maior produção
em um menor tempo. O fato do sistema ser de alta capacidade de adsorção
em conjunto com a possibilidade de realizar a cromatografia sem a clarificação
da amostra, economizando etapas de trabalho nesse processo, torna este
sistema cromatográfico altamente atraente para o setor produtivo,
ainda que o seu custo seja relativamente alto.
Por tratar-se
de um sistema especializado, existe a necessidade de equipamentos especiais
para garantir a performance do sistema. Por exemplo, as colunas são
próprias do sistema, não sendo possível a utilização
de colunas convencionais. A resina também é própria.
Além disso, conforme as características de expansão
do leito de resina, existe a necessidade de se trabalhar com fluxos
maiores do que aqueles usados em sistemas convencionais, a fim de atingir
a expansão requerida. Neste sentido, os sistemas de bombas também
necessitam ter características especiais, ainda que não
haja necessidade de se usar uma bomba de uma marca ou tipo especializado.
Dependendo das condições de cada Laboratório, um
sistema cromatográfico de leito expandido pode ser bastante automatizado,
com vários tipos de detectores e válvulas. Porém,
é possível ter um sistema manual simples.
O Centro de Biotecnologia
do Instituto Butantan está empenhado no desenvolvimento de novos
processos ou de novos produtos para uso humano. Um desses produtos em
desenvolvimento é produzido em bactérias E. coli
na forma de fusão, com uma sequência N-terminal de 6 histidinas
(6XHis). Dessa forma, a proteína recombinante pode ser
facilmente purificada usando-se cromatografia de afinidade por metal,
no caso de Ni+2. Inicialmente, o cDNA da proteína
foi subclonado em vetor plasmidial que permite a sua expressão
na bactéria E. coli. Após transformação
da bactéria com esse plasmídio, o clone é selecionado
pela capacidade de crescer em meio contendo antibiótico apropriado,
e, posteriormente inoculado em meio nutritivo contendo o antibiótico
de seleção. A cultura é crescida até atingir
uma densidade óptica (OD600 nm= 0.5) quando se adiciona o indutor
da expressão. A cultura é crescida por cerca de 3 horas
e as células são coletadas por centrifugação
ou filtração e ressuspensas em tampão apropriado
contendo 8 M uréia. Neste momento, as células são
lisadas e a proteína recombinante presente nos corpúsculos
de inclusão é solubilizada. Pela forma convencional de
purificação, haveria a necessidade de uma etapa prévia
de clarificação deste material para posterior entrada
no sistema cromatográfico. Entretanto, no caso de sistemas de
leito fluidizado, a suspensão toda é injetada na coluna
de baixo para cima. Os debris celulares e materiais particulados são
eliminados por cima sem que haja necessidade de uma clarificação
prévia do material. A coluna é lavada de baixo para cima
e a eluição do material adsorvido é feito com o
leito empacotado, injetando-se o tampão de eluição
contendo imidazol de cima para baixo. A eluição pode ser
monitorada de diversas maneiras. A figura mostra a análise de
algumas frações coletadas em gel de poliacrilamida contendo
o detergente aniônico dodecil-sulfato de sódio em condicões
redutoras. Podemos perceber que desta forma, foi possível a purificação
da proteína recombinante, com um alto grau de pureza, a partir
da cromatografia de um material particulado de bactéria.
| tradicional | com leito expandido |
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